Nishida Kitaro: biografia, filosofia e o legado da Escola de Quioto

Nishida Kitaro (1870–1945), filósofo japonês e fundador da Escola de Kyoto.

A trajetória intelectual de Nishida Kitaro (1870-1945) marca um dos períodos mais férteis da filosofia japonesa, sendo ele o visionário fundador da renomada Escola de Quioto. Este influente pensador dedicou sua vida a tecer uma complexa síntese entre as ricas tradições filosóficas do Oriente e as correntes de pensamento ocidentais.

Seu trabalho estabeleceu um alicerce para uma nova abordagem filosófica que ressoa até hoje, moldando o diálogo entre diferentes culturas e promovendo uma compreensão mais profunda da consciência e da realidade. A contribuição de Nishida Kitaro permanece fundamental para o estudo da filosofia moderna.

A vida e formação de Nishida Kitaro

Nishida Kitaro nasceu em 19 de maio de 1870, em Unoke, na província de Ishikawa, Japão, no terceiro ano da Era Meiji. Este período foi crucial, pois ofereceu a ele uma oportunidade singular de reexaminar as questões filosóficas orientais sob a nova luz proporcionada pelo pensamento ocidental.

Sua formação acadêmica começou na Universidade de Tóquio, onde se graduou em filosofia em 1894, concluindo seus estudos com um trabalho sobre David Hume. Durante seus anos universitários, foi significativamente influenciado por Raphael von Koeber, um filósofo russo-alemão que o introduziu à filosofia grega, medieval e aos trabalhos de Arthur Schopenhauer.

Após a graduação, a carreira de Nishida Kitaro o levou a ensinar alemão em uma escola secundária em Ishikawa, antes de assumir um posto na Escola Superior de Yamaguchi. Um ponto de virada pessoal e intelectual ocorreu em 1896, quando ele iniciou a prática da meditação Zen, impulsionado por seu amigo e colega D. T. Suzuki, figura seminal na disseminação do zen-budismo no Ocidente. Essa imersão no Zen-budismo se tornaria uma pedra angular de sua filosofia.

Em 1910, Nishida Kitaro foi convidado a integrar o corpo docente da Universidade de Quioto, um reconhecimento de seu crescente prestígio após a publicação de sua primeira e mais famosa obra, Uma Investigação do Bem, em 1911. Ele permaneceu como professor de filosofia nessa instituição por quase duas décadas, até sua aposentadoria em 1927.

Durante esse tempo, ele consolidou sua reputação como um dos mais originais filósofos japoneses, desenvolvendo os conceitos que formariam a base da Escola de Quioto. Sua vida pessoal foi marcada pela dedicação à filosofia e à prática Zen. Casou-se com sua prima em 1895, e a busca incessante pela verdade, acreditava ele, poderia ser encontrada na interseção entre o conhecimento ocidental e a espiritualidade oriental.

Em reconhecimento às suas contribuições culturais, Nishida Kitaro foi agraciado com a Ordem da Cultura (bunka kunshō) em 1940. Ele faleceu em 7 de junho de 1945, aos 75 anos, devido a uma infecção renal. Seus restos mortais foram divididos e sepultados em três locais distintos, incluindo o túmulo da família em sua cidade natal e o Templo Tōkei-ji em Kamakura, onde seu amigo D. T. Suzuki organizou seu funeral.

A filosofia de Nishida Kitaro e a lógica do basho

A filosofia de Nishida Kitaro surgiu em um contexto de intensa modernização e ocidentalização do Japão, buscando um caminho para expressar questões filosóficas orientais dentro de um arcabouço conceitual que também pudesse dialogar com o Ocidente. Sua abordagem criativa e original, que incorporava tanto ideias do Zen-budismo quanto da filosofia ocidental, visava aproximar essas duas vertentes.

O conjunto de sua obra é considerado o fundamento da Escola de Quioto e a inspiração para o pensamento original de seus discípulos. Entre suas obras mais notáveis, destacam-se Uma Investigação do Bem (1911) e A Lógica do Lugar do Nada e a Visão de Mundo Religiosa.

Em Uma Investigação do Bem, Nishida Kitaro explora conceitos como experiência, realidade, o bem e a religião, argumentando que a forma mais profunda de experiência é a experiência pura. Ele analisa o pensamento, a vontade e a intuição intelectual, buscando uma harmonia e unidade na experiência, que ele via como a essência da sabedoria asiática.

A revolucionária lógica do basho

O conceito mais célebre na filosofia de Nishida Kitaro é a lógica do basho (場所), geralmente traduzida como “lugar” ou “topos”. Trata-se de uma lógica concreta e não dualística, concebida para superar a inadequação da distinção sujeito-objeto, fundamental na lógica do sujeito de Aristóteles e na lógica do predicado de Immanuel Kant.

A lógica do basho afirma o que ele chamou de “autoidentidade absolutamente contraditória”, uma tensão dinâmica de opostos que, diferentemente da lógica dialética de G. W. F. Hegel, não se resolve em uma síntese. Em vez disso, define seu próprio sujeito mantendo a tensão entre afirmação e negação como polos ou perspectivas opostas.

Essa abordagem permite uma compreensão mais fluida e interconectada da realidade, onde o “nada” não é a ausência, mas um campo de potencialidade e inter-relação. Além disso, Nishida Kitaro via Deus como “indispensável e decisivo” em sua visão de mundo, o que demonstra a profundidade de sua exploração religiosa e metafísica.

Sua filosofia é uma constante busca por um terreno comum entre a espiritualidade e a razão, onde a verdade última reside na experiência direta e na interconexão de todos os fenômenos.

O legado duradouro da Escola de Quioto

O trabalho de Nishida Kitaro serviu como a fundação e a principal inspiração para a Escola de Quioto, que se tornou um movimento filosófico distinto e influente no Japão do século XX. Seus discípulos, como Tanabe Hajime e Keiji Nishitani, expandiram e desenvolveram as ideias de Nishida Kitaro, aplicando-as a diversos campos, desde a ética até a estética e a filosofia da religião.

A escola é conhecida por sua exploração de temas como o nada absoluto, a vacuidade, a experiência pura e a relação entre indivíduo e sociedade, sempre buscando integrar perspectivas orientais e ocidentais.

Controvérsias e reconhecimento internacional

O legado de Nishida Kitaro não foi sem controvérsias. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi criticado por pensadores de direita por sua apreciação da filosofia e lógica ocidentais, sendo visto como “antinacionalista”. No entanto, após a guerra, pensadores de esquerda o criticaram como “nacionalista” devido à sua ênfase na noção tradicional de nada.

Nishida Kitaro reconheceu uma universalidade na filosofia e lógica ocidentais, mas não aceitava que essa fosse a única universalidade, buscando uma abordagem mais abrangente que valorizasse múltiplos caminhos para o conhecimento.

A influência de Nishida Kitaro estendeu-se para além das fronteiras do Japão, sendo reconhecido por filósofos ocidentais como Edmund Husserl e Martin Heidegger, que encontraram em seu pensamento paralelos e estímulos para suas próprias reflexões.

A lógica do basho e a noção de experiência pura oferecem ferramentas conceituais para abordar dilemas modernos da subjetividade e da interconexão em um mundo globalizado. Hoje, Nishida Kitaro é amplamente considerado um dos filósofos mais importantes do século XX, cujas ideias continuam a provocar debates e a inspirar novas gerações de pensadores.

Sua capacidade de sintetizar tradições diversas e de forjar conceitos inovadores assegura que sua obra permaneça uma fonte vital para a compreensão da filosofia japonesa e da cultura japonesa em um contexto global.

Referências

IEP. Nishida Kitaro. Internet Encyclopedia of Philosophy, [s.d.]. Disponível em: https://iep.utm.edu/nishida/ STUDYLATAM. Kitarô Nishida. [s.d.]. Disponível em: https://studylatam.com/article/kitaro-nishida COLUMBIA UNIVERSITY. Nishida Kitaro. [s.d.]. Disponível em: https://www.columbia.edu/cu/tsukuru/japan/nishida.htm BRITANNICA. Nishida Kitaro. [s.d.]. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Nishida-Kitaro WIKIPEDIA. Kitaro Nishida. [s.d.]. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Kitaro_Nishida THE GREAT THINKERS. Kitarō Nishida. [s.d.]. Disponível em: https://thegreatthinkers.org/nishida/biography/

Perguntas frequentes

Quem foi Nishida Kitaro e qual a sua relevância para a filosofia japonesa?

Nishida Kitaro (1870-1945) foi um proeminente filósofo japonês, amplamente reconhecido como o fundador da Escola de Quioto, uma das mais influentes correntes filosóficas do século XX no Japão. Graduado pela Universidade de Tóquio em 1894, Kitaro foi professor de filosofia na Universidade de Quioto e, posteriormente, recebeu a Ordem da Cultura em 1940, consolidando seu papel como uma figura central na ponte entre o pensamento oriental e ocidental.

Quais são os pilares da filosofia de Nishida Kitaro e como ela se distingue?

A filosofia de Nishida Kitaro é notável pela sua síntese criativa de ideias do Zen budismo e da filosofia ocidental. Um de seus conceitos mais famosos é a “lógica do basho” (lugar ou topos), uma lógica concreta não-dualista que visa superar a distinção sujeito-objeto, central para Aristóteles e Kant. Nishida introduziu a noção de “autoidentidade absolutamente contraditória”, uma tensão dinâmica de opostos que não se resolve em síntese, como na dialética hegeliana, mas mantém a tensão entre afirmação e negação. Ele também explorou a “experiência pura” como a forma mais profunda de experiência, buscando a unidade e harmonia.

Como Nishida Kitaro influenciou a Escola de Quioto e qual o impacto de seu legado?

Nishida Kitaro é amplamente reconhecido como o fundador da Escola de Quioto, servindo de inspiração para o pensamento original de seus discípulos e estabelecendo as bases para esta corrente filosófica. Sua obra, que buscava aproximar o Oriente e o Ocidente, moldou a identidade da escola. O legado de Nishida foi complexo: durante a Segunda Guerra Mundial, foi criticado por direitistas como anti-nacionalista por sua apreciação da filosofia ocidental, enquanto após a guerra, esquerdistas o criticaram como nacionalista devido à sua ênfase na noção de nada. Sua filosofia, no entanto, é valorizada por reconhecer uma universalidade na filosofia ocidental sem aceitá-la como a única, e por sua influência duradoura na filosofia moderna global.

Qual a importância da obra de Nishida Kitaro no cenário filosófico global?

A obra de Nishida Kitaro é de importância global significativa, sendo considerado um dos filósofos mais relevantes do século XX. Sua síntese única de filosofias orientais e ocidentais, especialmente através da “lógica do lugar”, desafiou paradigmas existentes e ofereceu novas perspectivas sobre a consciência e a relação entre o eu e o mundo. Embora seu reconhecimento no Ocidente tenha sido gradual, suas ideias têm sido objeto de estudo por pensadores como Edmund Husserl e Martin Heidegger, solidificando seu impacto na filosofia contemporânea e sua contribuição para um diálogo filosófico mais amplo entre diferentes tradições culturais.

Perfil

Nishida Kitaro

西田 幾多郎
Nishida Hakase (Professor Nishida)
Nascimento: 19 de maio de 1870 Unoke (atual Kahoku), Prefeitura de Ishikawa, Japão
Falecimento: 7 de junho de 1945 Kamakura, Prefeitura de Kanagawa, Japão
Nishida Kitaro foi um renomado filósofo japonês e o fundador da Escola de Quioto de filosofia. Sua obra é uma síntese original do pensamento ocidental (especialmente a filosofia ocidental moderna e o idealismo alemão) com as tradições filosóficas orientais, como o Zen-budismo e o Budismo Mahayana. É conhecido por conceitos como “experiência pura” e “lugar do nada” (basho), buscando uma compreensão da realidade que transcende a distinção sujeito-objeto. Sua filosofia teve um impacto profundo no pensamento japonês do século XX e continua a ser estudada globalmente.

Ocupação e Carreira

Filósofo
Professor de Filosofia
Afiliação Principal: Universidade Imperial de Quioto (atual Universidade de Quioto)
Período Ativo: Início do século XX

Educação

Instituição: Universidade Imperial de Tóquio (atual Universidade de Tóquio)
Área de Estudo: Filosofia
Ano de Formação: 1894

Principais Obras

Zen no Kenkyū (善の研究)Uma Investigação do Bem (1911)
Jikaku ni okeru Chokkan to Hansei (自覚における直感と反省)Intuição e Reflexão na Autoconsciência (1917)
Hataraku Mono kara Miru Mono e (働くものから見るものへ)Do Agir ao Ver (1927)
Tetsugaku Ronbunshū (哲学論文集)Ensaios Filosóficos (7 volumes, 1935-1946)

Conceitos Filosóficos Centrais

Experiência Pura (純粋経験 – Junsui Keiken)
Lugar do Nada (場所 – Basho)
Contraditoriedade Identitária Absoluta (絶対矛盾的自己同一 – Zettai Mujunteki Jiko Dōitsu)
Vontade Criativa
Ação-Intuição

Legado

Fundador: Escola de Quioto de Filosofia
Influenciou gerações de filósofos japoneses e promoveu o diálogo entre o pensamento oriental e ocidental.
Filosofia Oriental Filosofia Ocidental Zen Budismo Budismo Mahayana Metafísica Epistemologia Ética Existencialismo Idealismo Alemão Escola de Quioto Professor de Filosofia 1910 1928 Universidade Imperial de Quioto Filósofo

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