Søren Kierkegaard (1813–1855) foi um filósofo e teólogo dinamarquês que dedicou a própria obra a uma pergunta que os sistemas filosóficos de sua época evitavam: o que significa existir como indivíduo concreto, diante de escolhas que ninguém pode tomar no lugar de ninguém. Em pouco mais de uma década, publicou uma sequência de livros que vai de Ou… ou (1843) a A Enfermidade Mortal (1849), escritos em grande parte sob pseudônimos, e deixou diários que continuam sendo editados e estudados. Essa combinação de crítica à filosofia de sistema, análise da angústia e reflexão sobre a fé cristã fez dele uma referência central para o existencialismo do século XX — embora o rótulo de “pai do existencialismo” descreva apenas uma parte do seu projeto, que era antes de tudo religioso.
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Origem e formação em Copenhague
Kierkegaard nasceu em 5 de maio de 1813, em Copenhague, o caçula dos sete filhos de Michael Pedersen Kierkegaard e Ane Sørensdatter Lund. O pai, nascido em família pobre na Jutlândia, havia enriquecido como comerciante na capital dinamarquesa. Sua religiosidade era severa e marcada pela melancolia; ele criou o filho na tradição luterana e numa congregação morávia em que tinha papel de destaque. Biógrafos costumam apontar essa atmosfera doméstica — piedade rígida, sentimento de culpa e tristeza do pai — como um dos contextos que moldaram os temas do autor, ainda que a extensão exata dessa influência seja objeto de interpretação.
Ingressou na Universidade de Copenhague em 1830 para estudar teologia, mas os estudos se arrastaram por mais de uma década. A morte do pai, em 1838, deu-lhe o impulso para concluir a formação: em 1841 concluiu e defendeu a dissertação O Conceito de Ironia, com Referência Constante a Sócrates, concluída em junho e defendida em setembro daquele ano. Concluiu também o seminário pastoral que o habilitaria ao sacerdócio na Igreja luterana de estado, mas nunca foi ordenado e jamais chegou a assumir uma paróquia.
O noivado rompido e o início da escrita
Em 1840, Kierkegaard ficou noivo de Regine Olsen, a quem conhecera em 1837. O noivado durou menos de um ano. Na carta em que devolveu o anel, pediu perdão dizendo que, “apesar de tudo o que era capaz de fazer”, não poderia fazer uma moça feliz. Os motivos do rompimento não são inteiramente conhecidos; parte da especulação envolve a própria melancolia do autor e sua relação com o pai já falecido. Regine resistiu ao fim do noivado, e ele chegou a ensaiar um plano de se passar por um galanteiro sem escrúpulos para afastá-la — estratégia que fracassou. Em 1841 rompeu definitivamente e partiu para Berlim, onde ouviu conferências do filósofo Schelling. Regine casou-se depois com Johan Frederik Schlegel.
O episódio ficou para sempre ligado à obra. Kierkegaard permaneceu solteiro e, no testamento, deixou os bens a Regine, para deixar claro que considerava o noivado tão vinculante quanto um casamento — ela recusou a herança, exceto alguns itens pessoais. E os primeiros anos após o rompimento foram o período mais produtivo da sua vida: de 1843 a 1846 saíram, entre outros, Ou… ou, Temor e Tremor, Repetição, Fragmentos Filosóficos, O Conceito de Angústia e o Postscriptum.
Pseudônimos e esferas de existência
Uma das marcas mais singulares da obra é o uso de pseudônimos que funcionam como personagens: Ou… ou foi publicado por “Victor Eremita”, Temor e Tremor por “Johannes de silentio”, O Conceito de Angústia por “Vigilius Haufniensis”, Fragmentos Filosóficos e o Postscriptum por “Johannes Climacus”. Não é um disfarce casual: cada voz encarna uma perspectiva sobre a existência, e o próprio Kierkegaard pediu que citações dessas obras fossem atribuídas aos pseudônimos, não a ele. Nos diários, ele explicava o método como comunicação indireta — o objetivo não era entregar doutrina pronta, mas obrigar o leitor a se posicionar por conta própria.
Por esse caminho, a obra explora as esferas da existência. A estética vive de possibilidades e de experiências sucessivas; a ética, representada pelo Juiz Wilhelm em Ou… ou, é o território da escolha e do compromisso — para o Juiz, a liberdade se realiza na autolimitação voluntária, no casamento e no trabalho assumidos como tarefas. A esfera religiosa, que ocupa os últimos escritos, exige um salto que nenhuma etapa anterior garante. Em Temor e Tremor, o Abraão que aceita sacrificar Isaque é apresentado como o exemplo em que a fé ultrapassa a ética universal, e o livro cobra do leitor mais perguntas do que respostas.
A angústia ocupa um lugar central nesse conjunto. Em O Conceito de Angústia (1844), Vigilius Haufniensis formula a definição mais repetida do livro: “a angústia é a vertigem da liberdade”. A ideia é que a angústia surge justamente quando o espírito se depara com a própria possibilidade de escolher — não é medo de um objeto, mas vertigem diante do que é possível. Nos diários, em 1843, o autor anotou o pensamento que talvez resuma essa posição do indivíduo no tempo: “É bem verdade o que a filosofia diz, que a vida deve ser compreendida de trás para frente. Mas com isso se esquece a outra proposição: que ela deve ser vivida de frente” (diário JJ: 167, 1843).
Do Corsário ao ataque à Igreja
Em 1846, Kierkegaard se envolveu numa polêmica com o semanário satírico The Corsair. Depois de provocar o jornal atacando o estudioso P. L. Møller, tornou-se alvo de uma série de caricaturas que zombavam do seu aspecto pessoal. O autor, que fazia passeios diários por Copenhague e conversava com quem encontrasse, passou a ser olhado e vaiado nas ruas. Ficou recluso diante dos grupos curiosos e hostis. Desistiu do plano de se tornar pastor e, segundo a reconstrução dos biógrafos, sentiu-se chamado a “permanecer no posto” como escritor.
Vieram então os livros do segundo período: A Obra do Amor (1847), sobre o amor cristão como dever anônimo e não como sentimento, Discursos Cristãos (1848), A Enfermidade Mortal (1849), que analisa o desespero como doença do próprio eu, e Prática do Cristianismo (1850).
A última colisão foi com a Igreja da Dinamarca. Enquanto o bispo J. P. Mynster, pastor da família na infância, viveu, Kierkegaard evitou ataques pessoais. Quando Mynster morreu, em 1854, e o sucessor Hans Lassen Martensen o celebrou como “testemunha da verdade”, Kierkegaard rompeu o silêncio: de dezembro de 1854 em diante publicou dezenas de artigos no jornal Fædrelandet e dez números do panfleto Øieblikket (“O Instante”), sustentando que o cristianismo oficial do país era uma versão amenizada, uma falsificação do cristianismo do Novo Testamento.
No fim de outubro de 1855, desmaiou paralisado na rua e foi internado no Frederiks Hospital. Morreu em 11 de novembro, aos 42 anos; o diagnóstico provisório apontou tuberculose da medula espinhal. Ao amigo de infância Emil Boesen, que o visitava no hospital, afirmou seguir crente em Cristo.
Legado
A influência de Kierkegaard atravessa correntes que raramente se encaixam num mesmo rótulo. Filósofos como Heidegger, Sartre e Jaspers, escritores como Kafka e Ibsen, e psicoterapeutas como Rollo May e R. D. Laing retomaram temas seus: a angústia, o desespero, a responsabilidade do indivíduo, a crítica às respostas coletivas para perguntas pessoais. Wittgenstein o descreveu como um “santo” e como “de longe o pensador mais profundo” do século XIX.
Chamá-lo de pai do existencialismo é útil e limitado ao mesmo tempo. O movimento de Sartre leu nele a precedência da existência sobre a essência — a ideia de que cada pessoa se constitui escolhendo — e é essa herança que aproxima o dinamarquês de Nietzsche e de Sartre. Mas o projeto de Kierkegaard era explicitamente religioso, dirigido a “esse indivíduo” que o leitor é. Essa mesma tensão entre a decisão individual e as construções coletivas reaparece, em outra chave política, em Hannah Arendt, e a pergunta sobre como viver num mundo sem respostas garantidas é o terreno que Camus herdou do absurdo. O seu diário sugere por que essa obra não envelheceu: o problema de compreender a própria vida só depois de vivê-la não admite solução definitiva — é a condição de quem vive de frente.
Fontes principais: Stanford Encyclopedia of Philosophy — Søren Kierkegaard; Encyclopaedia Britannica — Søren Kierkegaard; texto dinamarquês do diário JJ: 167 documentado em Søren Kierkegaards Skrifter, vol. 18.
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